“Preço baixo nem sempre significa oportunidade.” Ao se deparar com papéis de empresas em recuperação judicial, muitos investidores sentem o apelo de descontos expressivos. Mas por trás dessa desvalorização há riscos que podem transformar um suposto negócio da China em armadilha perigosa.
Nos últimos anos, o Brasil bateu recordes de pedidos de recuperação judicial. Juros altos, crédito restrito e caixa apertado elevaram a inadimplência corporativa a níveis inéditos. Com isso, ações de companhias em dificuldade viraram alvo de compradores especulativos, dispostos a apostar numa possível virada de cenário.
A recuperação judicial é um mecanismo legal para reorganizar dívidas e evitar a falência de empresas em crise. A ideia central é negociar prazos e valores com credores, preservar empregos e manter ativos operacionais. Em tese, funciona como uma segunda chance.
No entanto, a entrada em recuperação judicial coloca a empresa em uma zona de incerteza jurídica e financeira. Processos complexos, disputas com fornecedores e aprovações judiciais fazem parte do dia a dia. Para acionistas, isso geralmente se traduz em volatilidade extrema e perda de confiança.
Em 2025, registraram-se 2.466 CNPJs em recuperação judicial, o maior número desde 2012, alta de 13% em relação a 2024. Foram 977 processos formalizados, 5,5% a mais que no ano anterior. Enquanto a média mensal histórica gira em torno de 106 companhias, o país se manteve consistentemente acima dessa marca.
Ao mesmo tempo, 8,7 milhões de CNPJs estavam negativados em janeiro de 2026, com dívida média de R$ 23.138,40 e sete restrições por empresa. Cerca de 31,6% das companhias ativas apresentavam algum tipo de inadimplência. Tudo isso reforça que a recuperação judicial costuma ser o estágio seguinte à incapacidade de honrar compromissos.
Num contexto de aceleração de novos negócios—6,5% no número de empresas em 2023, 13,4% em 2024 e 22,5% em 2025—o volume de RJs ultrapassa o efeito estatístico. Está em um patamar ainda muito elevado, refletindo um ambiente desafiador para o setor empresarial.
Para quem encara a “compra no fundo do poço”, a tese é simples: papéis barateados podem disparar se o plano funcionar. Espera-se que, após a reestruturação, a companhia consiga reduzir dívidas, retomar governança e reconquistar mercado. É a famosa tese do investidor que compra no caos.
Por outro lado, a probabilidade de falhar é alta. A reestruturação pode não ser aprovada, o plano pode travar em disputas judiciais e o mercado pode não recuperar confiança. Em muitos casos, resta aos credores converter dívidas em participação societária, diluindo ações e reduzindo ainda mais o retorno potencial.
Risco de falência: se o processo migrar para falência, como ocorreu com a Oi, os papéis despencam e o investidor pode ficar sem nada.
Risco de perda total: analistas alertam que a chance de destruir todo o capital é superior à de empresas saudáveis, tornando o investimento altamente especulativo.
Risco de diluição acionária: planos que envolvem emissão de novas ações ou conversão de dívida em equity reduzem a participação dos atuais acionistas.
Horizonte longo: não há atalhos. Fontes indicam que podem se passar mais de dois anos até emergir um resultado visível, exigindo paciência e tolerância à volatilidade.
Incerteza na execução: mesmo com plano aprovado, a companhia precisa de governança sólida, credores alinhados e condições de mercado favoráveis para colocar tudo em prática.
Investir em ações de empresas em recuperação judicial é navegar entre desconto real e risco elevado. Não se trata apenas de comprar barato, mas de avaliar se o plano de reestruturação tem base sólida, se a governança está preparada e se o investidor aguenta esperar pelo desfecho.
O mercado oferece tanto oportunidades quanto armadilhas. Cabe a cada um definir se prefere a adrenalina de apostar numa virada ou a segurança de ativos mais estáveis. Afinal, conhecimento é a melhor defesa na hora de decidir se vale a pena encarar esse desafio.
Referências